Memórias, parte 1

Meu nome é Daniel. O sobrenome não importa, já que ele morreu há muitas décadas. Não apenas o nome, mas todos que o carregavam já se foram há muito tempo. Exceto eu. Pelo simples fato de que eu não posso morrer. Bom, existe uma maneira, mas é melhor não falarmos disso. Por enquanto é melhor você acreditar que não posso morrer. Melhor ainda. É melhor você saber que não posso morrer.

Nasci na França, em uma época conturbada. Parando para pensar, nesses anos todos, não sei se consigo achar uma época que não tenha sido conturbada. Não, não participei da Revolução Francesa, mas cresci com seus ecos ainda bastante fortes. Lembro de muito pouca coisa de minha infância na França, e uma das poucas lembranças que tenho é um cartaz envelhecido da Revolução pregado à parede da boulangerie perto de casa. Tínhamos uma casa modesta mas bastante confortável, e nossa família preferia não se envolver diretamente com a política ou com os ideais que ressonavam naquela época. Assim, a Revolução, para mim, era apenas algo que ouvia falar, e fora de casa.

No ano em que nasci, Louis XVI e Marie Antoniette foram guilhotinados. Essa, mesmo, é uma história que só vim a entender e conhecer realmente muitos anos depois, através dos livros. É irônico, até. Estive lá, e mesmo assim só pude compreender o que se passava através da visão de outras pessoas, que sequer nasceram naquele século. Certo, eu era um bebé, e na minha família as pessoas não eram muito envolvidas com o resto da sociedade. Não é de se admirar, então, que eu tenha herdado essa alienação de berço.

Tenho, então, se você contar direitinho, 214 anos de idade. As pessoas geralmente me dão 25 ou 30. É onde eu tento estar. Hoje em dia é mais fácil ir mais longe que isso, pois aceita-se mais facilmente que alguém com a minha aparência tenha até mesmo 40 anos. Viva a medicina moderna. Em contrapartida, é cada vez mais difícil, por assim dizer, manter-se legalmente vivo ou legalmente morto nos dias de hoje. O controle é maior, e posso dizer que já passei por alguns apuros legais nas últimas décadas.

Pois bem, imagine que, antigamente, os governos não tinham controle de natalidade ou mesmo de mortandade entre seus cidadãos. Era fácil sair de um lugar com um nome e chegar a outro, totalmente desconhecido, com outro. Não existiam documentos a serem falsificados. Sua palavra bastava. E isso salvou-me de alguns embaraços na forca ou mesmo no pelotão de fuzilamento. Não é nada agradável ficar pendurado pelo pescoço por semanas até que seus algozes esqueçam de você e você possa encontrar uma maneira de sair dali, acredite. Então, como todas as pessoas normais desse mundo, aprendi a evitar a forca, por uma questão de vergonha, mesmo. Bom, existe uma questão de sobrevivência nessa decisão, claro. Você deve saber. Quanto menos publicidade alguém como eu tem, mais fácil é a vida, pode ter certeza.

Não vi, enfim, a Revolução acontecer, pois nasci quando ela já estava terminando. Mas vi, sim, Napoleão coroar-se Imperador. Não vi, ali, no sentido de estar no salão onde ele fez isso, mas vivi essa época, na França mesmo. Alguns de nós gostam de gabar-se que conheceram reis e rainhas, que serviram a príncipes e ajudaram cientistas em suas descobertas. Honestamente? É verdade, mas não gosto dessas histórias. Sim, com toda certeza é bastante provável que uma pessoa como eu tenha mesmo estado presente em alguns dos grandes acontecimentos do mundo. Na verdade (e esse é outro segredo), nós estamos envolvidos na história da humanidade de uma maneira muito maior que se possa imaginar. Temos, por assim dizer, dirigido a história por séculos, já. Indiretamente, na maioria das vezes, é claro. Dizem que o próprio Louis XI era um de nós. Outros dizem que Robespierre o era, e que Louis XI era apenas um humano normal. Nunca saberemos, não é?

Nascemos nós para sermos os reis. Assim o dizem. Nascemos para sermos reis, somos os príncipes do universo. Muito bonito, tem seu fundo de verdade, mas mais para o sentido figurado. Quem gostaria de ter um rei imortal? Setenta, oitenta anos no poder? Não, muito obrigado. Que tipo de golpe de estado um rei desses seria obrigado a presenciar? Poderíamos, realmente, governar seu mundo. Um exército imortal poderia derrubar a nação que quisesse, anexar o maior dos impérios. Conheci pessoas que lutaram com os mongóis, que sobreviveram ferimentos e batalhas mortais, mas que não tinham como continuar, depois. Porque eram sozinhos. E é assim que deve ser. É só por isso que não existe um exército imortal, é só por isso que estamos espalhados pelo planeta. Porque acreditamos cegamente que só pode haver um. É nossa religião. Um exército imortal consumiria a si mesmo, desaparecendo sobre seu próprio nascimento.

Eu, particularmente, sigo uma vertente de pensamento que diz que podemos viver em paz, dividindo esse pequeno planeta. Não conheço McLeod pessoalmente, mas já ouvi falar dele. Se o encontrasse, com certeza não iria tentar cortar sua cabeça. Aliás, não tento cortar a cabeça de ninguém sem ter um motivo bom para isso. Já o fiz, durante minha adolescência e antes de entender o que se passa conosco, é verdade. E não me orgulho disso.

(continua)

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