Para pensar sobre a indústria de videogames

Na primeira semana do ano, no blog da Capcom, havia duas mensagens dos chefões da empresa:  Kenzo Tsujimoto e Haruhiro Tsujimoto, CEO e COO, respectivamente. O que as  siglas significam não importa, importa é que eles MANDAM na parada. Importa  que eles SABEM das coisas. Imagina: os caras sabem tudo que  acontece dentro da CAPCOM! Caraca, eu queria poder saber o que esses caras sabem só por um dia!

Você comprou o remake do Street Fighter, você aguarda ansiosamente o lançamento de SFIV, você joga Megaman 9 e, mesmo sabendo que vai ser uma bomba gigantesca, você vai ao cinema ver a namorada do Clark bater no cara do Black Eyed Peas (não, você NÃO vai baixar e assistir em casa). E adivinha pra quem os chefões da CAPCOM agradecem em suas mensagens de ano-novo?

Você! jogador, gamer, fã, entusiasta, viciado, fanboy…  — barulho de disco sendo riscado na vitrola.

Não. Não é pra você. A mensagem do CEO da CAPCOM começa assim:

“Primeiro, quero expressar minha sincera apreciação a todos os nossos investidores por seu suporte e compreensão em 2008”.

E segue falando sobre a crise financeira mundial, como a Capcom pretende agir para continuar no mercado, blablabla.

A mensagem do COO da compania começa com:

“Eu gostaria de iniciar meus votos de ano-novo extendendo meus sinceros agradecimentos aos nossos acionistas, consumidores, empregados e todos os outros investidores que fizeram da Capcom um sucesso”.

E segue falando sobre a crise financeira mundial, como a Capcom pretende agir para continuar no mercado, blablabla.

Alguns fatos em específico me fizeram parar para pensar:

  1. Os chefões da empresa agradecem aos investidores;
  2. A palavra “videogame” aparece apenas uma vez — e apenas em uma das mensagens;
  3. Essas mensagens foram publicadas no blog da Capcom, lugar destinado a notícias não-corporativas, coisas mais informais, voltadas para o público consumidor da empresa, para os gamers;
  4. Para o CEO, o que importa para a Capcom é gerar fluxo de caixa;
  5. Para o COO, o que importa para a Capcom é mudar para gerenciar melhor… o fluxo de caixa;

De tudo isso sai uma verdade absoluta que explica muita coisa que vem acontecendo na indústria de videogames: é uma indústria. Infelizmente a Capcom não existe para te fazer feliz. Ela existe para dar dinheiro para seus investidores. Assim como a Microsoft, a Sony, a Nintendo, a Eletronic Arts e todas as outras.

Muitas vezes nos esquecemos desse fato simples. E, por esquecermos disso, acabamos por criticar várias atitudes das empresas que, por um motivo ou outro, moram em nossos corações. Se começarmos a pensar em tudo isso da maneira correta, se colocarmos as emoções de lado e analisarmos friamente do ponto de vista do capitalismo, vamos notar quão nonsense são algumas de nossas atitudes em relação aos videogames.

Vamos analisar a reclamação mais frequente de 2008: a de que a Nintendo abandonou seus jogadores hardcore. Em um comentário aqui no Continue, esses dias, alguém colocou que 2008 só foi bom para a Nintendo, que foi uma porcaria para seus fãs. Discordo. Pense que a Nintendo é uma empresa. Pense que eles vem vendendo consoles como água no deserto. Porque diabos eles estariam preocupados se você está feliz ou não? O que importa são números, e gráficos, e balanços.

Mas você pode tentar argumentar que se os clientes não estão felizes, a empresa não vai vender. Discordo novamente. Uma grande parte dos chamados jogadores hardcore Nintendo passou o ano todo reclamando. E mesmo assim as vendas do Wii continuaram sempre a subir, subir. O que isso quer dizer?

Voltemos ao caso da Capcom. Eu não sei qual é o envolvimento da empresa com o filme que está para sair, mas tenho certeza que eles não estão preocupados se o filme vai ser fiel aos jogos ou se os fãs hardcore vão gostar ou mesmo se o elenco foi bem escolhido. É um filme baseado em um dos maiores sucessos da empresa, que praticamente todo mundo conhece. É um filme voltado para um público amplo, bastante amplo: jogadores de videogame, adolescentes, fãs de filmes de luta, fãs da namorada do Clark. É bastante gente. Desse povo todo, se 10% for gente que realmente é fã de Street Fighter, eu acharia muito. Esse pessoal vai assistir e vai achar ruim. Esse pessoal vai descer o sarrafo em foruns e blogs. O resto da população mundial vai assistir assim mesmo, e na realidade não importa se vão gostar ou não. O que importa é a grana que eles vão pagar para entrar no cinema.

Microsoft. A nova interface do Xbox360 foi feita para melhorar o serviço e te deixar mais feliz com o visual bonitinho-copiado-dos-Miis? Não. A Microsoft é uma empresa acostumada a ganhar muito dinheiro. Eles melhoraram a interface para alavancar as vendas no fim do ano. Já que uma revisão de hardware custaria muito dinheiro, um simples tapa no visual seria tão eficiente quanto. Se a Microsoft quisesse mesmo que você fosse feliz, a Live seria grátis, haveria updates grátis e os jogos custariam metade do que custam.

O que nos leva à Sony. A PSN ser de graça é porque a Sony te ama, certo? Porque ela quer que seus jogadores sejam mais felizes jogando de graça online, certo? Errado! É outra empresa acostumada a ganhar muito dinheiro, mas já que seu console é o mais caro do mercado, ela precisa adicionar valor a seu produto. Uma ótima maneira é “compre e não pague mais nada”.

A Square Enix, ao anunciar o Final Fantasy XIII para o Xbox foi duramente criticada por seus fãs. Será que preciso mesmo explicar por que eu disse, na época, que essa notícia era praticamente irrelevante? Os caras não pensam “vamos fazer um FFXIII para Xbox porque eu acho que os caixistas vão gostar”. A idéia é mais para “vamos fazer um FFXIII para Xbox porque só o público do PS3 não vai conseguir pagar as nossas contas dessa vez”.

Fidelidade é uma coisa que não existe no mundo corporativo. Veja o caso do Xbox original. A NVidia chegou para a Microsoft um belo dia e falou que não fabricaria mais a placa de vídeo usada no videogame. Simples assim. Não estava valendo a pena. Não estava dando tanto dinheiro quanto eles gostariam. Com isso a MS teve que lançar o 360 antes do previsto e o resto da história vocês já conhecem. Com isso o Xbox simplesmente deixou de existir para a MS e os muitos de donos da caixa original viram-se sem eira nem beira. O que eles fizeram? Compraram o novo modelo, o 360. Sacanagem da MS? Não. Negócios, simplesmente negócios.

A Sony, por sua vez, seguiu seus planos para o lançamento do PS3, e ele entrou no mercado um ano depois do 360. Muita gente diz que foi cedo, outros dizem que foi tarde. Eu acho que foi na hora certa, dada a estratégia da empresa. Porém, ao invés de aposentar o PS2, ela continuou a suportá-lo, lançando jogos e até mesmo continuando seu desenvolvimento (no ano passado foi lançado uma nova versão do PS2, que custava 99 dólares). A Sony ama seus jogadores de PS2 e não queria obrigá-los a comprar o PS3? Claro que não! Acontece que ela sabia que o PS3 ainda não estava pronto para ser o sucesso que o PS2 foi, em grande parte por causa do preço. Enquanto isso, ela continuou alimentando o produto que dava dinheiro.

Enfim, resumindo tudo, é insensatez gostar mais de um jogo, um console ou uma empresa pelo simples gostar. O que todos deveríamos fazer é analisar fria e economicamente o que é mais vantagem para cada um. Obviamente que para nós, gamers e seres humanos, nessa conta entram coisas subjetivas como gosto e simpatia, e as empresas apóiam-se e exploram isso ao extremo. Porém, não esqueçamos qual é o real objetivo de todos os participantes dessa partida (exceto nós): arrancar o máximo possível de dinheiro de nossos bolsos. Os chefões da Capcom que o digam.

3 respostas para Para pensar sobre a indústria de videogames

  1. Tango disse:

    “você aguarda ***anciosamente*** o lançamento de SFIV”

    Por favor… Por favor… Corrija isso… E não vá culpar a nova gramática… =P

  2. Rachel disse:

    Cara, você é engraçado. gostei de você.

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